‘É preciso educar o olhar’, diz fotógrafo German Lorca

Uma girafa solta no Anhangabaú. A cena, surrealista, foi descrita pelo fotógrafo German Lorca, 93, em palestra nesta segunda (5) na Folha.

Era por volta de 1962 e o trabalho era para um anúncio de um veículo da marca Jeep. A girafa, que representava a resistência da rural Willys (veja abaixo), escapou do tratador e foi passear pelo centro de São Paulo. “Se fosse hoje, teria sido uma desgraça”, disse, lembrando que naquela época a quantidade de carros na região era muito menor.

O caso, que arrancou risos da plateia lotada do auditório do jornal, deu o tom da conversa com Lorca, mediada pelo curador Eder Chiodetto. A palestra marcou o início das atividades da turma do Programa de Treinamento em Foto e Videojornalismo da Folha.

Um dos nomes mais importantes do modernismo na fotografia brasileira, Lorca falou da sua formação e de como era difícil fazer fotos “tremidas”, “fora de foco” serem aceitas.

Aos jovens, aconselhou educar o olhar e praticar muito. “Para ser um bom fotógrafo precisa fotografar constantemente”.

O programa de treinamento da Folha é patrocinado pela Philip Morris, Odebrecht e Friboi.

Confira abaixo alguns momentos da palestra.


 

DESDE CRIANCINHA

Aos sete anos eu tinha predileção por olhar as fotos dos jornais. Aos 18, terminei o curso de contador e abri um escritório para atender terceiros. Vieram meus filhos e pensei “preciso documentar a vida deles”.

APRENDIZADO

Em São Paulo, não existiam escolas de foto. Existiam pessoas que ensinavam a parte do laboratório, a fazer cópias. Aí me inscrevi no Foto Cine Clube Bandeirantes, que era um lugar que só tinha pessoas de nível elevado, como químicos, engenheiros.
Era o [estudo no] sentido acadêmico da fotografia. Então quando aparecia uma foto tremida, ou uma foto fora de foco, eles diziam “não, essa foto não pode ser julgada”. Não era verdade. Geraldo [de Barros] apresentou muitas fotos assim, [Thomas] Farkas também. Eu apresentei algumas, que não foram aprovadas.

FOTO TREMIDA

Quando Geraldo começou a colocar [para apreciação do clube] aquelas fotos tremidas, que não eram fora de foco, eram tremidas, e eram imagens sobrepostas, o pessoal do clube falou “isso não é fotografia”. Houve uma discussão violenta porque começaram a aparecer revistas estrangeiras de fotografia de arte que diziam o contrário. Aí o clube lentamente começou a aceitar.
Ainda outro dia fui no Museu de Arte de São Paulo e vi umas fotos que estavam no acervo do clube e foram doadas. Lá tinha uma foto minha que estava tremida e que julgaram que não era uma boa foto.

CIÚME DA LEICA

Eu tive todos os tipos de máquina profissional e amadora que se pode imaginar. Minha mulher uma vez ficou com tanto ciúme de uma Leica que eu tinha que jogou no chão. Disse que eu só pensava em fotografia.

INSPIRAÇÃO E SUOR

Diziam “você copiou Cartier-Bresson”. No tempo que fiz essa foto nem conhecia Cartier-Bresson. Nem sabia quem ele era. [sobre a foto “Menina na Chuva”, que encenou com sua sobrinha]

Para ser um bom fotógrafo precisa fotografar, mas precisa fotografar constantemente. Precisa ter saúde para se movimentar, ter atenção sempre no que está fazendo. Acompanho muito os jornais e vejo fotos maravilhosas, mas eles [os fotógrafos] se dedicam para fazer isso. Se você não se dedicar, prestar bem atenção, a fotografia vai embora. A foto acontece. Você também pode fazer acontecer uma fotografia, mas isso é outra coisa. É estúdio, é montagem.

Nas minhas fotos eu procuro captar o momento exato. Como disse Cartier-Bresson, a foto acontece para o fotógrafo e o fotógrafo faz acontecer.

OLHAR SATURADO

O [meu] olhar foi mudando [ao longo do tempo] porque você fica saturado. Fazer algo diferente é muito difícil. Este ano, me afastei um pouco do estúdio, fiquei em casa de repouso. Na minha casa entra sol de todos os lados. Comecei a analisar as sombras projetadas pelas janelas e cortinas e fotografei. Fiz umas 20 fotos, todas digitais, de sombras e linhas, que chamei “Geometria da sombra”.

[Quem está começando na fotografia] Precisa insistir e educar o olhar, acompanhar muito arte, pintura, para começar a educar a vista e ver o que está acontecendo. Opinião e julgamento de pessoas que entendem também é muito importante. Dizer “eu fiz uma foto de arte” é muito difícil. Você pode fazer, mas será que o pessoal vai aceitar?