Fotógrafo da Folha relata experiências com retratos de mulheres poderosas

Ex-editor assistente de Fotografia da Folha e hoje colaborador do jornal, o fotógrafo Keiny Andrade relata, através de duas experiências recentes, algumas das dificuldades envolvidas na hora de fotografar mulheres poderosas. Leia abaixo o depoimento.

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Semanas atrás eu fotografei duas mulheres aparentemente fortes e bem realizadas na vida profissional. A presidente mundial do banco Santander, Ana Botín, e a modelo Michelle Alves.

Ana é do mundo dos negócios, tinha uma postura rígida como o prédio em que estávamos. Como uma líder, não aceitava qualquer interferência minha sem olhar para os assessores e fazia objeção a qualquer direção que eu propunha. Em todas as fotos ela era sempre a mesma, uma torre de rigidez.

Michelle, também com assessores, sentou na minha frente. Não foi preciso dirigir. Modelo experiente, a cada clique fazia uma pose diferente, como numa sessão de moda.

Fiquei incomodado. Estava ajoelhado de frente para ela. Parei e pedi: “Feche os olhos, respire fundo e pense na Michelle que é mãe de quatro filhos, casada, e que ao mesmo tempo é bem sucedida em tudo o que faz”. Ela fez o que eu pedi, foram segundos de suspensão. Depois ela riu e eu também.

Voltando à Ana, depois de algumas fotos insossas e iguais eu sugeri que aparecesse a cidade ao fundo, já que estávamos no edifício ícone de São Paulo. Ela olhou para o assessor, que me disse: “Essa é a última, ok?”. Ela se posicionou de costas para a vista da cidade, rígida e imponente como uma líder de negócios. Olhei bem para ela e falei: “Está sendo mais doloroso do que enfrentar uma reunião com acionistas enfurecidos, não?”

Ela riu, falou alguma coisa em espanhol, que eu não me lembro, e eu pedi para ela se apoiar na grade, relaxando os ombros e os braços. Ela fez o que eu pedi, mas foi só um clique. Assim que o flash disparou ela retornou para a postura reta, dura e rígida. Ainda olhando para os assessores, disse: “Não sou modelo, não sei ser tão natural como elas” e me deixou fazer só mais uma foto.

Ana ficou disponível para a foto durante quatro minutos. Michelle posou para mim com uma naturalidade ensaiada e só desmontou quando eu pedi para ela olhar para dentro. Ana só desmontou quando eu comentei algo sobre suas reuniões e entrei no seu universo.

É muito complexo fotografar mulheres poderosas em pouquíssimo tempo e conseguir algum retrato verdadeiro. No fundo, não tem a ver só com o tempo, mas talvez com quem eu represento.

E, para quem não foi ainda, vale ver a exposição do Chichico Alkmim no IMS. Uma aula genuína e clássica de retrato.