Repórteres do “NYT” contam o que aprenderam cobrindo escândalos de assédio sexual

Por treinamento
Tudo começa com um boato de um homem poderoso que usa seu poder e sua fortuna para assediar ou abusar de uma mulher, e depois a intimida ou compra seu silêncio. Mas, como diversos repórteres do “New York Times” aprenderam, e contaram em um artigo publicado no site do jornal, raramente esses casos envolvem apenas um boato ou só uma mulher.

Nos últimos seis meses, o veículo foi responsável por divulgar três reportagens que revelavam, em primeira mão, grandes casos de assédio sexual recorrente nas indústrias de mídia, de tecnologia e de cinema. As matérias expuseram acusações feitas ao ex-âncora da Fox News Bill O’Reilly, a investidores do Vale do Silício e ao produtor de Hollywood Harvey Weinstein.

Para todos os jornalistas envolvidos nessas matérias, o padrão que se revelou foi sempre o mesmo: um grande número de mulheres que contava as mesmas histórias sobre os mesmos homens. A dimensão dos fatos, no entanto, foi algo que os pegou de surpresa.

“Até hoje nos perguntamos até onde esse caso pode chegar”, disse Jodi Kantor, repórter responsável, junto com Megan Twohey, pelo furo sobre Weinstein.

O produtor de cinema Harvey Weinstein, que acumula mais de cem acusações de assédio sexual e estupro (Chris Pizzello/Associated Press)

Nos casos de alegações de assédio sexual há certos fatores que tornam a apuração mais difícil que o normal. Dentre eles, a hesitação das fontes em revelar detalhes íntimos, o medo de represália e o fato de que muitas delas assinam contratos de confidencialidade.

“Antes de começar a reportagem, eu não sabia da dimensão desses contratos dentro desses meios. O problema é que, a partir do momento que a fonte assina um contrato, ela não pode falar mais nada sobre o ocorrido com ninguém”, diz Emily Steel, que produziu a matéria sobre O’Reilly em colaboração com Mike Schmidt. Por isso, o processo de apuração desse tipo de história pode levar meses de trabalho.

Outra questão que demanda tempo é conseguir fazer com que as vítimas falem sobre experiências que lhes são tão dolorosas.

“É preciso paciência e confiança”, diz Steel. Ela, que já havia sido ameaçada pelo âncora no passado enquanto fazia outra reportagem, diz que essa experiência a ajudou a entender a angústia pela qual suas fontes passavam.

O comprometimento depositado nas reportagens, posteriormente destacado por algumas das fontes, foi fundamental para que as mulheres contassem suas histórias. Para Kantor, o sucesso das matérias sobre O’Reilly e o Vale do Silício também foi crucial para que as pessoas se sentissem seguras em falar com ela.

Pui-Wing Tam, editora de Tecnologia envolvida no furo do Vale do Silício, conta que os predadores passaram a atacar também os jornalistas, fazendo ameaças e culpando as vítimas. “Chegaram até a me ligar para tentar contaminar a credibilidade dos repórteres.” E, depois da divulgação de acusações contra ele, Harvey Weinstein ameaçou processar o “Times” com um “exército” de advogados, como descreve Twohey.

Diante da grande repercussão de suas matérias, os repórteres insistem que a motivação para investigar boatos de assédio sexual não está atrelada a uma militância. “As pessoas me diziam para ‘acabar com ele’. Não tenho nenhum tipo de problema pessoal com Weinstein, nós só queremos saber a verdade”, afirma Kantor.