“Washington Post” descobre evidências de esquema que fornecia informações falsas para o jornal

Por treinamento

O “Washington Post” descobriu evidências de ligações entre uma mulher que fornecia informações falsas sobre um candidato ao Senado americano e uma organização que busca depreciar veículos de mídia tradicional, como descreve matéria publicada pelo jornal nesta segunda (27).

Em uma série de entrevistas, a mulher, chamada Jaime T. Phillips, 41, contou para repórteres do “Post” que havia tido um relacionamento com Roy Moore, candidato republicano pelo Alabama, em 1995. Segundo sua versão, o caso teria resultado em um aborto quando ela tinha 15 anos.

Ao ser questionada pelos repórteres, que encontraram diversas inconsistências no relato, ela os assegurou que não trabalhava junto a nenhuma organização –até que, nesta semana, Phillips foi vista entrando no escritório do Project Veritas, projeto nova-iorquino que age para desvirtuar a mídia tradicional e grupos de esquerda. Dentre as táticas usadas pela organização, está o uso de notícias falsas para expor o que consideram veículos tendenciosos.

Diante do ocorrido, o “Post” tomou a rara decisão de publicar as declarações anteriormente dadas por Phillips em off (jargão que indica que a fonte deve permanecer anônima). Embora seja regra que o veículo  honre tais acordos, essa é uma situação excepcional, disse o editor-executivo, Martin Baron, no artigo. “Essas conversas são a essência de um plano para nos enganar e humilhar. Não caímos nele por causa de nosso rigor jornalístico, mas não podemos honrar um pedido feito puramente de má-fé.”

Fachada do prédio do “Washington Post”, em Washington (Alex Wong/Getty Images)

Diversas inconsistências na versão da história contada por Phillips, além de seu comportamento, levantaram suspeitas nos repórteres – o prefixo do seu telefone, por exemplo, era do Alabama, Estado em que ela afirmava ter morado por pouco tempo durante a adolescência. A empresa para a qual ela dizia trabalhar também assegurou que não empregava ninguém com aquele nome.

Durante os encontros, o veículo afirmou que a fonte pressionava os jornalistas a fazerem previsões quanto ao impacto que a publicação da história teria para a candidatura de Moore, procurando fazer com que os repórteres admitissem esperar sua derrota.

Além disso, foi encontrada uma página de arrecadação de fundos no nome de Jaime Phillips. O texto da campanha, hospedada no site GoFundMe, pedia dinheiro para uma pessoa que pretendia se mudar para Nova York a fim de trabalhar “junto ao movimento conservador para combater as mentiras da mídia de esquerda”.

Os repórteres também acharam ofertas de emprego da Project Veritas, datadas de março, procurando “jornalistas infiltrados” – profissionais dispostos a adotar um pseudônimo, ganhar acesso a uma pessoa de interesse e persuadi-la a revelar informações. As funções propostas pelas vagas incluíam agir de acordo com um roteiro, preparar uma história para sustentar seu papel e operar equipamentos de gravação escondida.

Como descreve o “Post”, a situação ilustra a dimensão dos esforços de grupos ativistas para desacreditar veículos de mídia tradicional que divulgaram as denúncias contra Roy Moore. O candidato republicano é acusado de assediar meninas adolescentes enquanto ele tinha cerca de 30 anos, mas nega ter cometido qualquer ato impróprio.

O vídeo em que a fonte é confrontada com essas informações está disponível no site do “Washington Post”, junto às conversas entre Phillips e os jornalistas.