Mortes por desastres naturais recebem cobertura seletiva da mídia, diz estudo

Por treinamento
Para cada pessoa que morre em uma erupção vulcânica, cerca de 40 mil precisam morrer em decorrência de escassez de alimentos para receberem a mesma cobertura da mídia televisiva americana. Essa disparidade foi apontada um estudo publicado em 2007 pelos economistas suecos Thomas Eisensee e David Strömberg, que sugere que o destaque dado pela imprensa a mortes por desastres naturais é seletivo e varia de acordo com a causa e a origem da tragédia. 
 
A pesquisa analisou cerca de 5 mil casos de desastres ambientais que ocorreram entre 1968 e 2002 e 700 mil reportagens realizadas pelas redes CNN, CBS, NBC e ABC, quatro das maiores emissoras de televisão dos Estados Unidos. Com os resultados obtidos, foi concluído que determinados tipos de catástrofes, geralmente as menos espetacularizadas, demandam uma quantidade maior de fatalidades para atraírem a atenção da mídia. Acidentes mais chamativos, como terremotos e incêndios ambientais, não precisam de um grande número de mortos para serem noticiados. 
 
Mulher segura bebê em frente aos destroços causados por terremoto que atingiu o Nepal em 2015 (Wolfgang Rattay/Reuters)
A chance de uma tragédia causada por um tremor de terra ir parar na televisão é de um em cada três episódios. Enquanto isso, os dados mostraram que a apenas 2% dos surtos de epidemias que ocorreram nos 34 anos examinados foram alvo de cobertura. Situações de fome, embora tendam a resultar nas maiores taxas de mortalidade, viram notícia 3% das vezes. Secas, ondas de frio e desabamentos de terra também são catástrofes constantemente rejeitadas – menos de 8% dos casos foram pauta nos telejornais. 
 
Outro fator que determina a cobertura jornalística, de acordo com o estudo, é a localização dos desastres. Regiões como o continente africano e países do Pacífico recebem menos atenção que a Europa e as Américas. Os resultados mostram que, para que recebam a mesmo destaque destinado à morte de um cidadão europeu em decorrência de uma catástrofe natural, 91 nativos do Pacífico precisam ter sido vitimados. Além disso, apenas 3% das calamidades ocorridas nesses países e 4% das que aconteceram na África foram televisionadas pelas redes dos Estados Unidos. Em contrapartida, 18% dos casos da Europa e dos da América do Sul e Central foram parar nas televisões estadunidenses. 
 
Ainda segundo a pesquisa, essa tendência de seletividade da imprensa afeta a disponibilidade de medidas de emergência nos locais atingidos. A tendência é que a mídia impulsione a ajuda para tragédias como terremotos e explosões vulcânicas, ao mesmo tempo que deixa de incentivar auxílio ao divulgar timidamente circunstâncias de epidemia, seca e escassez de alimentos.