Em roda de conversa, Elvira Lobato e Clóvis Rossi dão conselhos para “focas”

Por treinamento

BIANKA VIEIRA
DA EDITORIA DE TREINAMENTO

“Eu me aposentei me sentindo como se fosse foca”, disse Elvira Lobato durante o 12º Congresso Internacional da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que aconteceu em São Paulo nos dias 29 e 30 de junho e 1º de julho. “Toda vez que tinha matéria importante, eu era tomada por um medo muito grande.” De acordo com Elvira, o sentimento perdurou até o dia em que publicou a sua última reportagem.

Rosental Calmon Alves, Clóvis Rossi e Elvira Lobato durante o 12º Congresso da Abraji (Divulgação/Alice Vergueiro)

A jornalista, que foi repórter especial da Folha, participou da mesa “Roda de conversa: o que eu gostaria que tivessem me dito quando eu era foca”. Além dela, estavam Clóvis Rossi, repórter especial e colunista da Folha, e Rosental Calmon Alves, professor na Universidade do Texas e diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas. “Foca” é jargão para jornalista inexperiente.

Em um bate-papo bem-humorado, os três compartilharam histórias das décadas de profissão com um público majoritariamente jovem. Na Folha desde o início dos anos 1980, Rossi afirmou que se fazer claro para o leitor é um elemento fundamental no jornalismo. “Seu Frias [Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), que foi publisher da Folha] olhava para os editoriais que eu escrevia e dizia ‘será que a Sua Excelência — como ele chamava o leitor — vai entender?’ Aprendi isso e já me peguei várias vezes relendo minhas próprias colunas com essa preocupação”, disse.

Elvira falou sobre a fragilidade da profissão. “Você nunca pode confiar em si mesmo ou se conformar com o que já sabe, porque nunca será o suficiente. É uma profissão que exige aprendizado permanente.”

Rosental, que atuou como mediador da conversa, destacou a importância do foca não se envergonhar por ter dúvidas e insistir em perguntar. “Eu sempre digo que não há pergunta estúpida, há resposta estúpida.”

Para Rossi, no entanto, uma das grandes lições aprendidas por ele tardiamente não tem a ver com o jornalismo em si, mas com o modo de levar a vida. “Eu achava que o jornalismo não era questão de vida ou morte, era ainda mais importante”, disse. “Eu almoçava, jantava, dormia e acordava jornalismo. O que eu ganhei com isso?”

Esse pensamento, ele conta, mudou após uma frase que ouviu, há dez anos, do jornalista Vaguinaldo Marinheiro, ex-secretário de Redação da Folha. “No meio de uma conversa, ele me disse: ‘a minha geração aprendeu que há vida além das Redações’.”

Rosental, que concorda com o raciocínio, complementou: “A nova geração é sempre melhor que a anterior. Pode ser que eles achem um ponto de equilíbrio melhor do que o nosso.”