‘Eleitor de Trump se sente colonizado culturalmente’, diz socióloga americana

Por treinamento

CAMILA BACCARIN 
EDUARDO MOURA 
RICARDO HIAR 
DA EDITORIA DE TREINAMENTO

A classe trabalhadora branca dos Estados Unidos se sente “colonizada culturalmente” pelos defensores do politicamente correto, e a eleição de Donald Trump à Presidência foi uma válvula de escape para essa angústia.

“Há ‘mapas de empatia’ de esquerda e de direita que dizem com quem você deve ou não simpatizar”, diz Arlie Hochschild, professora de sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley.

A socióloga passou cinco anos na Louisiana, terceiro Estado no ranking de pobreza nos EUA e com população de maioria branca. As histórias dessas pessoas estão no livro “Strangers in their Own Land” (estranhos em sua própria terra, em tradução livre), The New Press, 2016, 368 págs., US$ 27,95 (R$ 92).

Em entrevista à Folha, Hochschild diz que falta diálogo entre direita e esquerda.

A socióloga Arlie Russell Hochschild, professora emérita de Berkeley (Arquivo Pessoal)

Folha – Como o politicamente correto é percebido pela direita americana?
Arlie Hochschild – Por trás das preferências políticas de cada indivíduo, há uma “história profunda”. Para as pessoas com inclinação à direita, a história profunda é: você está esperando na fila, como numa peregrinação, para o sonho americano -e a fila não tem andado por muitos e muitos anos. Você se sente cansado, está envelhecendo, é branco, cristão, e então vê alguém cortando a fila na sua frente, e pensa: “Isso não é justo”.

Eles veem Barack Obama, que deveria ser um supervisor imparcial, acenando àqueles que furaram a fila. “Ah, ele era o presidente só deles.”

Por fim, alguém que está à sua frente na fila e que é mais educado, que nasceu nas grandes cidades fala: “Você é um atrasado, mal educado e um caipira preconceituoso”. Eles se sentem estranhos na própria terra, sentem que foram ignorados e desprezados.

Como foi a convivência durante a sua pesquisa? 
As pessoas com quem tive contato foram extremamente agradáveis. Demonstravam compaixão com as pessoas do mundo delas, como por exemplo, jovens soldados no Iraque ou Afeganistão. Há “mapas de empatia” de esquerda e de direita que dizem com quem você deve ou não simpatizar. Eles se sentem muito insultados quando são acusados de ter compaixão pelas pessoas erradas. Sentem-se colonizados culturalmente, como se forças maiores ditassem a maneira correta de sentir.

O politicamente correto é uma das razões pelas quais Donald Trump foi eleito? 
Uma delas. A principal foi que seu discurso correspondeu aos anseios dos direitistas. As pessoas foram sensibilizadas pelo desejo de restabelecer a ordem racial, de gênero, de identidade sexual, uma hierarquia cultural em que tinham posição mais alta.

 A sra. defende limites aos discursos políticos? 
Não sou a favor de viver em um mundo onde se pisa em ovos. Nós deveríamos ser capazes de dizer as coisas sem medo de ser incompreendidos. Devemos consertar isso.

Há um movimento chamado “Bridge Alliance” (Ponte da Aliança), formado por cerca de 80 organizações que querem que as pessoas conversem sobre pontos em comum sem medo de ofender.

A sra. acredita que se trata de um problema de valores inconciliáveis? 

Não seria justo dizer “precisamos nos livrar desse discurso” àqueles que defendem os direitos de refugiados, imigrantes, negros. O problema não está nesses valores, está na comunicação entre esquerda e direita. Se você defende esses grupos, você é chamado de politicamente correto. Isso é uma doença que se estabeleceu no diálogo entre esquerda e direita.