Reportagem investigativa pode ter efeitos incontroláveis, diz repórter em congresso

Por treinamento

BIANKA VIEIRA
DA EDITORIA DE TREINAMENTO

Jornalismo investigativo não é necessariamente investigar políticos corruptos. O repórter Vinicius Sassine, do jornal “O Globo”, defendeu essa tese no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado em São Paulo nos dias 29 e 30 de junho e 1º de julho.

Sassine falou do uso do jornalismo como forma de olhar assuntos de caráter social que recebem pouca ou nenhuma atenção. Durante o evento, promovido pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), o repórter apresentou a série de reportagens que assinou em junho de 2016, que denunciavam falhas no sistema de transporte de órgãos pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Os jornalistas Laura Castellanos, Marcelo Beraba e Vinícius Sassine durante o congresso da Abraji (Divulgação/Alice Vergueiro)

Em três anos, de acordo com sua apuração, a FAB recusou-se a transportar 153 órgãos saudáveis para transplantes. No mesmo período, o transporte de autoridades brasileiras, como deputados e senadores, não havia sido negado uma vez sequer. Em março deste ano, a série recebeu o Prêmio Rei da Espanha de Jornalismo.

“Eu também faço jornalismo investigativo de políticos, mas me sinto muito mais jornalista quando faço esse outro tipo de matéria”, afirmou Sassine. “Eu sempre vi o jornalismo como uma possibilidade de transformação social, de mudar o curso das coisas.”

Como efeito de seu trabalho, o repórter citou o decreto nº 8.783 assinado pelo presidente Michel Temer, que tornou obrigatória a disposição de uma aeronave para realizar o transporte de órgãos. “Uma reportagem pode ter efeitos [positivos] incontroláveis se atender aos princípios básicos de apuração.”

A sessão de conversa “Abraji Talks: boas histórias” contou também com a presença da jornalista mexicana Laura Castellanos, autora da reportagem “Fueron Los Federales”, que recebeu o Prêmio Latino-Americano de Jornalismo Investigativo.

Em 2015, Castellanos investigou a execução de 16 civis promovida por policiais da cidade de Apatzingan, no México. Além de compartilhar seus métodos de investigação e as dificuldades de conseguir um veículo que aceitasse publicar sua reportagem, que ficou na guardada por dois meses, Castellanos falou sobre o perigo de ser jornalista em seu país. “Tivemos mais de uma centena de colegas assassinados na última década. Apenas neste ano, já foram sete repórteres.”

Segundo levantamento realizado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) em 2016, o México era o país mais perigoso para jornalistas da América Latina. Ao citar esse dado, Castellanos disse que, de 2007 pra cá, foram relatadas mais de 700 agressões a jornalistas no México. Desse total, 70% dos agressores seriam agentes do Estado como policiais militares. Até agora, apenas duas condenações foram efetuadas.

Apesar das duas reportagens distinguirem-se por trazer cenários e histórias diferentes entre si, o jornalista Marcelo Beraba, diretor da sucursal de Brasília do “Estado de S. Paulo”, que mediou a conversa, destacou um ponto comum. “Elas têm a característica de não se conformarem com dados oficiais e mergulharem na busca por informações, seja para salvar vidas ou memórias e reputações.”