Jovem jornalista relata dificuldades enquanto busca por emprego na crise

Por treinamento
Repórteres participam de entrevista coletiva | Foto Avener Prado/Folhapress

O percurso para chegar ao primeiro trabalho após sair da faculdade pode ser lento e incerto. No caso de Kelly Mantovani, 23, esbarra na sina de um país com 13,5 milhões de desempregados, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Moradora do bairro da Brasilândia (zona norte de São Paulo), Kelly chegou ao jornalismo egressa da escola pública. Contou com a determinação pessoal e o apoio familiar, de um lado, e, de outro, com as políticas públicas que ampliaram e garantiram o acesso ao ensino superior. Com o salário do estágio na faculdade e a ajuda do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), obteve a graduação em 2015, seis meses após a morte do pai.

O desamparo paterno se mistura ao receio do futuro, premido por uma economia cujo PIB recuou 3,6% em 2016 e por medidas que não despertam otimismo, como as reformas trabalhista e da Previdência. Leia seu depoimento ao Novo em Folha.

Minha busca por emprego começou já no primeiro ano da faculdade. Naquela época, 2012, mesmo não tendo experiência, eu até conseguia entrevistas e fui chamada para trabalhar como estagiária na assessoria de imprensa da Prefeitura de São Paulo.

O salário pagava minha graduação, mas, com os reajustes da mensalidade, foi ficando mais difícil. Em 2013, meus pais tiveram que penhorar as alianças de casamento para me ajudar. Em 2014, apelei ao Fies.

Em maio de 2015, meu pai morreu de câncer no intestino. As provas finais do curso começavam numa segunda-feira, e ele morreu na quinta anterior. Fui fazê-las assim mesmo, porque a faculdade cobrava pelas substitutivas. Saí de lá devendo o dinheiro de um semestre.

Estou procurando emprego desde o ano passado, mas está difícil ser chamada para qualquer entrevista. Minha mãe trabalha em dois empregos como enfermeira. Existe uma pressão dela sobre mim, porque já passei dos 18.

No momento, sou colaboradora da Folha, para onde comecei a escrever em março de 2016. Mando pautas, e recebo quando elas são aceitas e produzidas. Também faço trabalhos para outro site, que cobre a Câmara Municipal de São Paulo. Não ganho bem, mas, se não me virar, a situação piora. Ao contrário do que [o deputado federal] Tiririca dizia, pior do que está fica, sim.

O bairro da Brasilândia, em São Paulo | Foto Eduardo Anizelli/Folhapress

Penso em mudar de área. Minha mãe está vendo um emprego de recepcionista no lugar em que ela trabalha. No entanto, alegaram que eu sou muito jovem e não teria experiência, apesar de eu ter 23 anos e uma faculdade.

Tudo isso me incomoda porque a gente investiu tempo e dinheiro na faculdade. É um investimento muito alto. Demanda pelo menos R$ 50 mil, em uma faculdade mediana, a não ser que você consiga passar na USP, o que é difícil se você não tem uma boa base nos ensinos fundamental e médio.

Sempre penso que uma hora talvez eu consiga um emprego na área do jornalismo, uma hora vai melhorar, porque as coisas são cíclicas. Mas aí a gente pensa nas reformas da Previdência e trabalhista e fica sem horizonte: não sei como vou trabalhar ou me aposentar. A descrença é geral, tanto entre as pessoas que parecem ter mais condições como entre aquelas que têm condições mínimas.

Sinto-me duplamente cobrada, pela minha mãe e por mim mesma. A gente se coloca muita pressão, e acho que expor isso é uma forma de lidar. Tenho certeza de que também tem muita gente passando por isso.