Colunista do ‘NYT’ aponta falhas da imprensa na cobertura da campanha de Trump

Por treinamento

“O ano passado não foi um dos melhores para o jornalismo”, diz Nicholas Kristof, colunista do “New York Times” em seu último texto de 2016. O jornalista já foi correspondente do “Times”, ganhou dois prêmios Pulitzer e é autor de livros de não-ficção, que analisam desde a ascensão da China até o combate à opressão. O último deles, “A Path Appears”, que relata experiências altruístas bem sucedidas ao redor do mundo, se tornou best-seller.

Na coluna, Kristof fez um apanhado das principais falhas do jornalismo norte-americano na cobertura da campanha de Donald Trump para a presidência. Para ele, a imprensa enganou a população ao fazê-la pensar que o magnata jamais chegaria à Casa Branca.

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O colunista do “New York Times” e escritor Nicholas Kristof (Foto: Reprodução/Facebook)

O colunista acusa a imprensa de ter feito pouca cobertura política independente —apenas 36 minutos foram dedicados mensalmente por todas as emissoras de TV à cobertura de questões eleitorais independentes de debates ou de pronunciamentos de candidatos.

Para Andrew Tyndall, responsável pelo levantamento, os jornalistas tiveram que decidir como reagir: “com cumplicidade, já que essa tática era fácil de adaptar para a estrutura de entretenimento típica de um reality show, ou com provocação, se aprofundando naquilo que estava em jogo”. Infelizmente, segundo ele, a maioria escolheu a primeira opção, “tratando os telespectadores não como cidadãos, mas como um monte de pares de olhos”.

Kristof diz que um dos desafios para os jornalistas foi enfrentar a pressão comercial em um momento em que a imprensa procura desesperadamente por um novo modelo de negócios. Nesse cenário, Trump era ouro para audiência. Para exemplificar, ele relembra uma fala do presidente da CBS sobre o magnata: “Pode não ser bom para os Estados Unidos, mas é bom demais para a CBS”.

Outro problema seria a falta de diversidade da mídia norte-americana. “Não temos muitos jornalistas com raízes evangélicas ou de classe operária, então a cobertura dos eleitores de Trump em geral foi vazia ou condescendente, e perdemos a fúria e o desespero que ele dirigiu rumo à vitória.”

Para Kristof, o caminho certo para o jornalismo agora é pressionar pela liberação de detalhes sobre impostos e políticas de governo, procurar com mais frequência os dois lados de toda questão e investir no jornalismo de reportagem, em vez de análises. Ele também cita como dever dos jornais derrubar histórias falsas em redes sociais. “Quando tantos americanos acreditam em alegações mentirosas, devemos atuar agressivamente do lado da verdade”, diz.

“Em breve teremos como chefe um dos mais evasivos, ignorantes e pueris políticos nacionais que já encontrei”, afirma Kristof. “Vamos focar no que importa. Não em celebridade, e sim em substância. O país hoje precisa mais do que nunca de um quarto estado robusto. Como resolução de Ano Novo, vamos tentar ser mais como cães de guarda, e não cãezinhos de colo”.