Repórter de tecnologia do ‘Times’ desiste da profissão e diz não se adaptar ao digital

Por treinamento

O jornalista Steven Levy reproduziu recentemente no site de notícias “Backchannel” o discurso de despedida do lendário repórter de tecnologia do “Times”, John Markoff, em que ele anunciava sua aposentadoria.

Markoff foi o responsável por alguns furos históricos do jornal, como a descoberta do primeiro vírus de computador significativo, o surgimento do browser de internet e a ascensão da inteligência artificial, entre outros.

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Repórter de tecnologia do “NYT”, John Markoff, responsável por importantes furos do jornal (Foto: Reprodução/Backchannel)

Ao anunciar sua aposentadoria do “NYT”, em evento na Escola de Jornalismo da Universidade de Berkeley, Califórnia, Markoff comenta que as pessoas sempre o parabenizam quando ele dá a notícia. “Que diabos? Vão me parabenizar por abandonar um dos melhores trabalhos do mundo?”

Ele também fala sobre o ódio contra jornalistas despertado em apoiadores de Trump após as eleições para presidente –alguns chegaram a dizer que profissionais da área deveriam ser enforcados. Por isso, Markoff sugere que talvez seja um bom momento de deixar a profissão.

Além de citar as grandes mudanças que presenciou durante seu tempo como jornalista, ele confessa não ter sido capaz de fazer a transição para o digital no trabalho. “É uma outra ironia –que eu tenha sido um dos primeiros a escrever sobre o mundo digital, mas quando ele realmente chegou tenha ficado claro que eu não seria um nativo digital”, afirma.

Depois de passar anos dizendo que a grande base de leitores do “Times” é ao mesmo tempo a maior força e a maior fraqueza do “NYT” –a boa notícia é que eles leriam o jornal até morrer; a má é que já estavam morrendo–, Markoff aproveitou a ocasião para fazer uma espécie de mea-culpa.

“Não é maravilhosamente irônico que, depois de dezenas de experiências com vídeos, aplicativos de smartphone, armadilhas para cliques e publicidade digital, o que fez o número de assinaturas explodir dez vezes mais desde as eleições foi aquilo com que o ‘Times’ sempre foi comprometido –veicular todas as notícias aptas para publicação, sem medo ou favorecimento?”

Ele diz ainda que algumas características da profissão jamais mudarão, afirmando que repórteres como Woodward e Bernstein –dupla do “Washington Post” que teve papel crucial na revelação do caso Watergate– continuarão sendo os grandes responsáveis pela vigilância de autoridades. “Notícias falsas vêm e vão, mas uma imprensa independente será sempre o alicerce de uma democracia.”