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Jornalista da agência Mural monitora uso do termo ‘carente’ na imprensa

Por treinamento

A agência Mural, que produz notícias sobre a periferia de São Paulo, decidiu monitorar como a imprensa trata essas áreas da cidade.

Desde o início deste ano, o jornalista Lucas Veloso, 22, vem reunindo exemplos de como se usa a palavra “carente” no noticiário. “O Mural acredita que a palavra carente, quando se refere aos moradores de periferia, é utilizada como julgamento de valor. A palavra pede um complemento, é preciso ser carente de algo. Da forma como é usada, ela só reforça os estereótipos sobre a periferia”, afirma Veloso.

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Lucas Veloso é repórter da agência Mural (Divulgação/Agência Mural)

Sempre que encontra algum uso indevido do termo, ele envia um e-mail de alerta ao veículo de comunicação responsável. Até agora, foram mais de 300 mensagens. Em um dos casos encontrados, um site publicou uma notícia dizendo que um cirurgião africano operava crianças carentes nos finais de semana. Em outro, uma revista falava em um evento beneficente para crianças carentes.

“Nestes exemplos, nenhum dos veículos completa o termo com algum aspecto. Parece que carente é alguém que não tem nada a oferecer, que só é vitimizado e em nada colabora com a sociedade”, diz Veloso.

Ele explica ainda que o objetivo não é acabar com o uso da palavra carente, mas trazer sempre a qualificação que o adjetivo pede. “Os jornalistas podiam escrever que certos locais são carentes de espaços públicos, de políticas sociais, bem como de escolas, cinemas e teatros, ao contrário de estampar que o fato de ser pobre é ser carente ao mesmo tempo.”

A taxa de retorno da iniciativa, no entanto, tem sido baixa: apenas cinco veículos de comunicação responderam. Um deles, o site “Hypeness”, agradeceu o aviso e alterou o título. De “Roteiro Hypeness: biblioteca-triciclo percorre morros do RJ e leva livros para crianças carentes”, mudou para “Roteiro Hypeness: biblioteca-triciclo percorre morros do RJ e leva livros para crianças das comunidades”.

De acordo com Veloso, um dos motivos para que se continue usando a palavra de forma equivocada é a distância que existe entre os jornalistas e a periferia. “Só aparecem notícias de acidentes e de ações policiais envolvendo traficantes. Iniciativas empreendedoras de moradores da periferia não recebem a atenção necessária”, diz ele, que mora no bairro de Guaianases, no extremo leste de São Paulo.

Veloso conta ainda que o objetivo é continuar publicando textos que apontem os erros dos veículos de comunicação na cobertura da periferia. “É um valor que se refere à cobertura que fazemos diariamente, quando pautamos as potências dos nossos bairros”.

O blog do Mural está no site da Folha.

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