Cobertura policial incentiva jovens a entrarem para o crime, diz pesquisadora

Por treinamento

Programas policiais de TV e rádio incentivam adolescentes a entrarem para o crime. A afirmação polêmica é da jornalista e pesquisadora Suzana Varjão, coordenadora-geral do “Programa de monitoramento de violações de direitos na mídia brasileira”, da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância). “Não nego o fenômeno dos adolescentes em conflito com a lei, mas posso dizer que com certeza estamos contribuindo para isso”, afirmou, em palestra na sede da Folha no dia 21 de setembro.

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A jornalista e pesquisadora Suzana Varjão durante palestra na Folha (Foto: Leonardo Neiva)

Segundo a jornalista, a insistência em ressaltar a impunidade de jovens faz com que outros adolescentes pensem que podem praticar crimes sem problema algum. “A questão é que não é bem assim. Eles serão mandados para unidades socioeducativas. Entre 2007 e 2010, 73 meninos foram assassinados em centros como esses”, diz Varjão, segundo dados da Anced (Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente).

A palestra teve como foco as violações de direitos em programas policiais de televisão e rádio, analisados a partir de uma pesquisa feita ao longo de um mês, que detectou infrações em 1.928 narrativas.

Foram encontrados indícios de tortura psicológica com jovens. Em um dos exemplos mostrados, um adolescente suspeito é humilhado por uma repórter até chegar às lágrimas. “Essas narrativas até dão contornos para decisões, como na votação para redução da maioridade penal”, afirma.

Segundo Varjão, essas violações são importantes porque “o jornalismo não apenas reflete realidades, mas também constrói”. Ela, no entanto, é contra colocar a culpa no jornalista. “Os problemas que estamos enfrentando têm mais a ver com o local em que o sujeito está inserido, com a realidade desses programas, do que com o próprio sujeito”, disse.

A pesquisadora critica também o protagonismo dado a âncoras que não são jornalistas e “agem como deuses”, muitas vezes se opondo à aplicação de leis e incentivando o uso da violência. Além disso, o baixo valor das multas –o teto para programas de rádio e TV é de R$ 89 mil, mas a maior multa já aplicada no Brasil foi de R$ 23 mil–, em comparação com a alta audiência e a renda de patrocínios, seria a principal razão para a pouca importância dada às infrações pelas emissoras.

Segundo Varjão, outro problema são programas humorísticos que transformam temas criminais em assuntos de entretenimento e que “incitam exaustivamente ao linchamento e muitas vezes chamam quem defende a lei de bandido”.

A jornalista diz que há o que ela considera violações de direitos na imprensa escrita, ainda que em menor número. Como exemplo, cita a veiculação do nome de suspeitos de crimes sem que haja relevância jornalística. Para ela, a divulgação dessas informações pode causar danos irreversíveis aos suspeitos.

A especialista defende a criação de uma regulamentação mais rígida para o jornalismo. “Precisamos pensar se o que queremos é usar formas mais cruéis para retratar atos cruéis ou se devemos procurar formas mais humanas”, afirma. “Para mim, a segunda é sempre a melhor opção”.