‘Jornalismo é mais forte agora do que nunca’, diz diretora de programa de bolsas nos EUA

Por treinamento

SABINE RIGHETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA*

Um dos principais programas sabáticos para jornalistas da atualidade, o KWF – Knight-Wallace Fellowship, da Universidade de Michigan, nos EUA, está de cara nova. Depois de três décadas sob direção do jornalista Charles Eisendrath, ex-“Times”, quem assume agora a direção do fellowship, como o programa é chamado, é a jornalista norte-americana Lynette Clemetson, da turma de bolsistas de 2009.

O KWF concede um ano sabático de estudos na Universidade de Michigan para jornalistas em meio de carreira (americanos e estrangeiros). Desde a sua fundação em 1973, o programa já recebeu 677 jornalistas de 35 países —15 deles vindos do Brasil. A Folha tem uma parceria com o programa desde 2009 e envia anualmente de um a dois jornalistas para um período de estudos em Michigan.

Clemetson headshot
Jornalista norte-americana Lynette Clemetson, diretora do programa KWF

O Treinamento conversou com Clemetson, nova diretora do programa, com exclusividade. Para ela, mesmo com tantas mudanças recentes no jornalismo, a essência, que é contar histórias, continua a mesma. E o gosto pela leitura também continua, o que muda é que o texto, hoje, existe em vários dispositivos diferentes. Leia abaixo.

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Folha – Você está assumindo um programa de jornalismo em meio a uma enorme transformação do próprio jornalismo. Como você vê isso?
Lynette Clemetson – Estou bastante entusiasmada com o futuro do jornalismo. Essa transformação está em curso há mais de uma década. Certamente muitas empresas de notícias e jornalistas têm sofrido com a mudança, mas também há um monte de oportunidades. O jornalismo é mais forte agora do que nunca. Há mais maneiras de acessar as informações que buscamos como jornalistas e outras maneiras de obter nossas histórias para as pessoas. Mesmo que seja um momento “perigoso” para os jornalistas em muitos lugares, há muitas formas de fazer jornalismo investigativo e de fazer prestação de contas ao público.

Ainda há espaço para equipes “spotlight” nas redações?
Cada redação tem que descobrir como ter um orçamento para suportar um trabalho essencial. E o que é essencial para uma organização de notícias pode não ser essencial para outra. Nem todo mundo precisa de ter uma unidade de investigação.

O que mudou no jornalismo desde que você começou sua carreira?
Tudo mudou. Eu trabalhava como correspondente da “Newsweek” em Hong Kong num momento em que a revista ainda tinha edições internacionais prósperas. Foi um trabalho dos sonhos e eu nunca poderia me imaginar fazendo outra coisa. Em uma década, eu estava lançando um site e pensando em novos modelos de negócios. Mas, mesmo no meio de tanta mudança, a proposta continua sendo contar histórias das pessoas.

Especialistas como o professor Phillip Meyer estão falando sobre o fim da edição impressa em poucos anos. Você concorda com isso?
Muitas pessoas ainda gostam de ler, mas o texto pode existir de várias formas e em dispositivos diferentes. O que mudou é que a notícia impressa não é mais a única opção para chegar às pessoas. Ganhar dinheiro com produtos impressos é muito mais difícil, o que leva a decisões difíceis sobre a distribuição. Eu compro revistas impressas numa banca esperando o metrô porque eu vou estar sentada em um trem e terei tempo para leitura, mas poderia acessar as mesmas histórias no meu telefone. Uma empresa de mídia forte deve pensar em como atingir um consumidor de notícias em uma variedade de maneiras. Isso é um negócio difícil.

Como você vê as iniciativas de jornalismo independentes que estão crescendo fora das grandes redações? Jornalistas são preparados para ser empreendedores?
Parte do que está movendo o jornalismo hoje em dia é o crescimento de projetos de jornalismo independente construídos em torno de áreas específicas. Eles estão produzindo uma grande quantidade de trabalho de alta qualidade, que desafia uma ideia convencional de jornalismo. Muitos deles, no entanto, enfrentam os mesmos desafios das grandes empresas de comunicação. Eu não acho que todos os jornalistas precisam ser empreendedores, mas é bom saber que muitos estão tendo a chance de construir um novo modelo com o qual todos nós podemos aprender.

Em 2015, 38 jornalistas brasileiros foram mortos de acordo com o CPJ [Comitê para Proteção de Jornalistas, na sigla em inglês]. É um número enorme. Como você vê o jornalismo investigativo e jornalismo em área de conflito hoje em dia?
Sim, Brasil, México, Guatemala, Síria, Turquia, blogueiros, jornalistas de rádio, freelancers, é um momento perigoso em várias regiões e para todo tipo de jornalista. No Brasil, o assassinato de jornalistas é preocupante porque se trata de uma democracia com jornalismo robusto. É importante garantir que as pessoas conheçam essa situação. Precisamos destacar essas mortes e falar sobre elas. É importante para jornalistas de outras partes do mundo estar cientes do que está acontecendo no Brasil e em outros lugares onde os jornalistas estão sendo alvejados porque trabalham para ter uma sociedade bem informada.

O que você estudou durante o seu fellowship em 2009? O que mudou na sua carreira depois?
Eu vim para o KWF quando era editora-chefe de um site. Eu tinha ido de uma carreira muito gratificante como jornalista de impresso e foi uma transição esmagadora fazer o gerenciamento de uma mídia digital. O ano sabático em Michigan me permitiu “desempacotar” tudo o que tinha aprendido e descobrir o que queria fazer com aquilo. Passei um ano estudando a viabilidade financeira e editorial de novos modelos de mídia e pesquisei um monte de novos sites. Naquele ano, o meu entusiasmo pelo jornalismo ganhou ainda mais força.

Mulheres têm espaço no jornalismo?
As empresas de mídia têm andado para trás em todos os tipos de diversidade: de gênero, de raça, étnica, socioeconômica. Há, no entanto, um monte de mulheres importantes em papéis de liderança de mídia. Eu tive sorte de aprender com várias delas. Acho que o emocionante agora é que muitas mulheres estão criando novas oportunidades para outras mulheres no jornalismo.

Quais são os seus principais planos para o futuro da KWF?
Quero trabalhar em dois pontos fortes do programa: o acesso à Universidade de Michigan e as viagens internacionais do fellowship [uma dessas viagens é para o Brasil, em contrapartida da Folha pela parceria com o programa]. Eu também acho que há espaço para um foco mais prático sobre questões atuais dos jornalistas, que estão experimentando, em seus trabalhos, novas formas de alcançar audiência e de gerar receita.

Também quero ajudar os chefes das redações a entender melhor o valor do ano sabático, não apenas para o jornalista individualmente, mas para a redação em geral. Ora, um dos maiores desafios da redação —na inovação, no desenvolvimento de ideias novas, na reconfiguração editorial e dos modelos financeiros— é a falta de tempo. Muitos fellows terminam o ano sabático com ótimas ideias que podem ser aproveitadas pelas suas empresas. Quem receber esse jornalista de volta vai poder explorar e absorver essas ideias, mas, se isso não acontecer, o trabalho corre o risco de ficar perdido.

*SABINE RIGHETTI foi fellow no KWF’12 pela Folha estudando rankings universitários.