Designer defende projetos criativos com viabilidade financeira

Por treinamento

Premiada por projetos gráficos inovadores, a designer Elaine Ramos afirma que é possível ser criativo sem tornar os produtos inviáveis financeiramente.

Ex-diretora de arte da editora Cosac Naify, que encerrou as atividades no fim de 2015, ela conversou na terça-feira (5) com as equipes de Arte da Folha e falou sobre a importância de harmonizar forma e conteúdo.

Ex-diretora de arte da Cosac Naify, Elaine Ramos lançará uma nova editora neste ano (Imagem: Divulgação)
Elaine Ramos, ex-diretora de arte da editora Cosac Naify (Imagem: Divulgação)

“É óbvio que qualquer coisa diferente na gráfica tem um custo mais alto, mas sempre há uma preocupação em estabelecer um preço de capa acessível”, disse. Segundo Elaine, é possível viabilizar projetos gráficos inovadores e não tão caros ao utilizar papel fabricado no Brasil, ao restringir o número de cores na impressão ou mesmo editar obras que estão em domínio público.

Um dos livros apresentados durante a palestra foi “Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street”, de Herman Melville (1819-1891). A capa é costurada por uma linha e as páginas, revestidas por folhas que lembram um muro de concreto, precisam ser “soltas” uma a uma.

Segundo Elaine, a ideia é que o leitor “incorpore a negatividade” de Bartleby, que responde “acho melhor não” para tudo que seu chefe lhe pergunta. Mesmo com os recursos gráficos inovadores, foi vendido em livrarias por menos de R$ 50.

Livro “Batleby, o escrivão”, editado pela Cosac Naify (Imagem: Reprodução/Youtube)

A coletânea de colunas escritas por Ruy Castro na Folha, “Letra e Música”, usa o espaço em que foram veiculadas como inspiração. Como os textos publicados quatro vezes por semana no jornal têm sempre o mesmo tamanho, as páginas são quase uniformes, com exceção do título.

Livro “Letra e Música”, editado pela Cosac Naify (Imagem: Divulgação/Tereza Bettinardi, Elaine Ramos)

Em “Zazie no metrô”, de Raymond Queneau (1903-1976), a história se passa em Paris nos anos 50. A editora ilustrou a parte interna das páginas impressas em papel-bíblia com fragmentos de cartazes da época.

Segundo Elaine, “isso gera uma espécie de rumor urbano, um caos que é um pano de fundo, algo que você não enxerga, apenas entrevê”.

Livro “Zazie no metrô”, editado pela Cosac Naify (Imagem: Reprodução/Youtube)

Para a designer, “há cada vez menos espaço nas livrarias para livros diferenciados”. “Quanto mais vende, mais são expostos, e quanto mais expostos mais vendem”, afirmou.

Ela se diz pessimista com o mercado pela dificuldade de concorrer com empresas “como a Amazon” e pelo “custo muito alto cobrado por gráficas boas”.

Elaine Ramos lançará no segundo semestre uma editora ao lado de Florencia Ferrari, ex-diretora editorial da Cosac Naify. A empresa ainda não tem nome definido e deve herdar alguns títulos da editora anterior.