Ex-editora da ‘Veja’ dá dicas para jornalistas que cobrem saúde

Por treinamento

Relatos tocantes, atenção aos detalhes, fontes médicas confiáveis. Esses são alguns dos elementos que fazem uma boa reportagem de saúde, afirma a jornalista Karina Pastore, 50, especializada no tema.

Em palestra no Programa de Treinamento em Saúde e Ciência da Folha, Karina, que foi editora da área de saúde na revista “Veja” por 15 anos, deu dicas práticas para quem pretende investir nesse tipo de jornalismo:

Uma das dicas de Karina Pastore é falar com associações de pacientes para encontrar personagens (Foto: Divulgação)

1) Procure depoimentos que aproximem o leitor

As reportagens de saúde devem ter “cara de gente”. “O leitor tem de olhar aquilo e pensar ‘isso pode acontecer comigo, com a minha mãe, meu chefe.”

2) Tenha delicadeza nas entrevistas

É importante não esquecer que doentes são pessoas fragilizadas e que cada um enfrenta o tratamento de uma forma. “Fiz uma reportagem sobre morte digna, um tema delicadíssimo. Tinha gente que nem queria tocar no assunto, mas havia uma mulher que contou tudo, até com naturalidade”, lembrou.

O cuidado com o entrevistado deve seguir na hora de escrever. Karina desaconselha dados alarmistas. “Você descreve a luta de uma pessoa contra um tipo de melanoma. Não dá para colocar um ponto e emendar que ‘a chance de cura é de 1%’. Há formas mais sutis de dizer o mesmo.”

3) Procure associações de pacientes

Para encontrar bons personagens, procure associações de pacientes ou vá para as filas de postos de saúde e hospital. Tenha cuidado com médicos que têm assessoria pessoal de imprensa e querem passar o contato de pacientes, recomenda Karina.

4) Use pitadas de história e literatura

Buscar referências históricas ou literárias enriquece as reportagens. “A história da medicina traz fatos fascinantes. Contar, por exemplo, como se operava um câncer de mama, mutilando muitas mulheres, ajuda e entender como evoluimos”, disse Karina. Ela citou um texto sobre Alzheimer, no qual usou uma metáfora feita pelo cineasta Luis Buñuel. “Ele dizia que a perda da memória era como o apagar gradual de luzes em uma cidade.”

5) Vá aos lugares e gaste tempo

Para Karina, o jornalismo vale a pena quando se consegue levar o leitor para determinadas situações. Ela ficou vários dias sentada em uma UTI para contar a rotina do lugar. Percebeu, por exemplo, que não havia o leito de número 13. “Eu precisava ficar imersa naquele ambiente. Ver que tubo sai, que tubo entra. Porque se for para saber quantos leitos tem no Brasil, não precisa ir lá. Faz pelo telefone, pega na internet.”