Jornalistas discutem traumas da cobertura de conflitos em livro

Por treinamento

O trabalho de contar histórias sobre mulheres vítimas de estupro no Haiti marcou a jornalista americana Mac McClelland, que escrevia para a revista “Mother Jones”. Para evitar pesadelos e “flashbacks”, bebeu e fez sexo violento. Hoje, alterna coberturas sobre direitos humanos, sua especialidade, com outros assuntos mais leves, como festivais de cultura.

McClelland é uma das entrevistadas em “Depois do Front” pelas jornalistas Giuliana Tenuta e Paula Saviolli, formadas em 2014. No livro, as autoras ouvem sobre os riscos e consequências de cobrir conflitos.

A jornalista americana Mac McClelland desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático depois de cobrir conflitos (Foto: Reprodução/Twitter)

“Alguns correspondentes de guerra são ‘war junkies’ [viciados em guerra, em tradução livre]. Queríamos entender por que se envolvem tanto em um trabalho perigoso e difícil de fazer”, diz Saviolli, que foi estagiária e repórter na Folha.

O livro é uma extensão do trabalho de conclusão de curso das autoras. Um dos principais assuntos abordados é o transtorno de estresse pós-traumático, que afeta 29% dos jornalistas que já cobriram cinco ou mais conflitos, segundo estudo feito pelo canadense Anthony Feinstein.

O livro fala ainda sobre riscos específicos para fotógrafos e frilas, que viajam sem apoio de um veículo, e lista alguns pontos que deveriam ser debatidos entre jornalistas, empregadores e instituições de ensino, como a necessidade de fornecer acompanhamento psicológico aos profissionais que retornam de um conflito.

Entre os entrevistados estão Fernando Costa Netto, ex-editor-chefe do “Notícias Populares”, Tariq Saleh, jornalista da “BBC”, e Klester Cavalcanti, que foi preso na Síria enquanto trabalhava. Segundo Saviolli, a maior dificuldade durante a apuração de seis meses foi justamente a conversa com os repórteres.

“Eles se esquivavam, sentíamos uma dificuldade para falar sobre isso porque nós, jornalistas, criamos um muro profissional entre o que estamos cobrindo e nós mesmos”, afirma. “Temos que prestar mais atenção no nosso trabalho e no impacto que ele tem em nossa vida.”

DEPOIS DO FRONT – OS TRAUMAS PSICOLÓGICOS DOS JORNALISTAS QUE COBREM CONFLITOS
AUTORAS: Giuliana Tenuta e Paula Saviolli
EDITORA: Reflexão
QUANTO: R$ 30,32 (144 págs.)