‘Jornais brasileiros precisam se posicionar contra política de drogas’, diz britânico

Por treinamento

O jornalista britânico Misha Glenny ressaltou, em palestra no auditório da Folha nesta segunda (4), a importância de que meios de comunicação defendam uma mudança na política de drogas atual.

Glenny, que colaborou com veículos como “Guardian” e BBC, acaba de lançar o livro “O Dono do Morro” (Companhia das Letras), um perfil do narcotraficante Nem, que chefiou o tráfico de drogas na favela da Rocinha até ser preso, em 2011. A palestra foi mediada por Marco Aurélio Canônico, diretor da sucursal do Rio da Folha.

O jornalista britânico Misha Glenny (esq.) e o mediador, Marco Aurélio Canônico
O jornalista britânico Misha Glenny (esq.) e o mediador, Marco Aurélio Canônico, em palestra na Folha
 
“O Brasil tem uma política de drogas que consome muitos recursos e cujos resultados são morte e violência”, afirmou.
 
O jornalista contou que, para o livro, entrevistou o traficante por 28 horas, além de sua família, delegados de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e diversos moradores da favela.
 
“Para a polícia, o instrumento mais importante para que Nem exercesse seu poder era a corrupção. Para o próprio Nem, era o apoio da comunidade. Eu acho que era uma mistura dos dois”, disse.
 
Glenny disse acreditar que a ausência do Estado durante 15 anos e o monopólio da violência foram os fatores determinantes para a ascensão de Nem –opinião que, segundo ele, encontrou eco no secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame.
 
Segundo o britânico, as mortes na Rocinha diminuíram enquanto Nem dominava a favela, uma decisão que teria viés econômico. “Ele se deu conta de que, se você diminui a taxa de violência, o negócio cresce.”
 
O interesse em escrever a biografia do traficante veio pela vontade de mostrar à Europa uma visão mais complexa do Brasil, para além dos “quatro ou cinco estereótipos” que saberiam sobre o país.
 
Decidiu-se pelo tema ao perceber que a prisão de Nem, que acompanhou pela TV enquanto estava no Rio, “refletia a divisão da sociedade carioca”. “Metade o considerava um demônio. A outra metade, herói.”
 
Segundo Glenny, ele não foi o único repórter a tentar entrevistar o chefe do tráfico na prisão, mas foi um dos poucos que conseguiram. O fato seria explicado pela indisposição de Nem com a imprensa nacional e por sua vontade de se projetar para fora do Brasil.
 
“É difícil fazer gente como ele falar”, reconheceu o jornalista. “Mas, uma vez que eles começam, não querem parar.”