“Jornalismo científico brasileiro é bom, mas pouco”, diz neurocientista

Por treinamento

TÚLIO AMARAL
DA EDITORIA DE TREINAMENTO

A cobertura jornalística de ciência no Brasil é boa, mas pouca. O diagnóstico é do neurocientista Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que falou no Programa de Treinamento em Jornalismo de Ciência e Saúde da Folha, no último dia 15. “Minha experiência com o jornalismo científico brasileiro sempre foi a melhor possível”, afirmou.

Para Rehen, a falta de um espaço maior para essa cobertura reflete a pouca atenção dada à ciência no Brasil. “A gente é uma sociedade meio primitiva em algumas coisas”, afirma. “O cientista ainda é visto como um ser exótico.”

O neurocientista Stevens Rehen diz que o jornalismo pode aproximar sociedade e comunidade científica (Foto: Divulgação)

Ele critica também um certo jornalismo de “copiar e colar” o que está no “EurekAlert!”, o site de artigos que dá acesso aos textos alguns dias antes de eles serem publicados em revistas científicas.

Rehen, 45, diz acreditar que a imprensa pode ajudar a aproximar a sociedade da ciência —ele é autor do livro “Células Tronco: o que são? Para que servem?”, que explica o tema para leigos.

O neurocientista criticou o sistema de artigos revisados por pares pela sua demora e por ser, algumas vezes, de má qualidade. “Da maneira como é feita, a revisão é quase ridícula.” Ele cita o modelo de circulação preprint, que é a divulgação do estudo antes de ele ser publicado em revista. “O ideal seria que não se esperasse a publicação de um artigo para se referir a ele. O escrutínio dos méritos da pesquisa já seria feito por um número maior cientistas tendo o preprint como referência.”

Rehen afirmou que os biólogos resistem a essa mudança, enquanto os físicos já adotam os preprints.

Como exemplo de estudo divulgado na imprensa ainda no estágio preprint, Rehen citou a sua própria pesquisa sobre a relação entre o vírus da zika e a microcefalia. Em reportagem da Folha, o jornalista Reinaldo Lopes abordou o estudo ainda não revisado, o que causou rebuliço na comunidade científica. A pesquisa, no entanto, virou referência na área.

Na palestra Rehen disse ainda que uma das maiores contribuições para sua pesquisa veio de um episódio da série de televisão “Arquivo X”. Em um episódio, uma experiência clonava gêmeas como parte de uma estratégia militar. Uma das criações, porém, não nasceu má, ao contrário da irmã.

A série explicou a diferença de caráter pela quantidade de cromossomos no cérebro, justamente o tema dos estudos de Rehen, que assistiu ao episódio. Ele passou a pesquisar o quanto essa combinação de cromossomos influencia na personalidade do indivíduo. Um caso de diálogo entre ficção científica e ciência.