Desempregada, jornalista vira balconista, conta história no Facebook e viraliza

Por treinamento
Por dois anos a jornalista Beatriz Franco, 28, trabalhou produzindo conteúdo para mídias sociais. Seu maior case de sucesso, no entanto, foi feito quando já estava desempregada.

Em uma semana, a postagem de Beatriz no Facebook foi compartilhada por quase 50 mil pessoas e teve 348 mil curtidas. O assunto: como ela, fluente em inglês e espanhol, deixou o preconceito de lado para trabalhar em uma doceria em Santos (SP).

Beatriz diz que a princípio estranhou a ideia, mas preferiu a vaga ao desemprego. Formada em jornalismo, trabalhou em redações na Baixada Santista, em uma assessoria de imprensa na capital paulista e depois virou frila, fazendo traduções e monitorando redes sociais.

Como não arrumava trabalho desde dezembro, aceitou o convite de uma amiga para ser balconista. “Nunca imaginei que viveria algo assim nem que o post teria essa repercussão.”

A jornalista Beatriz Franco, 28, que publicou texto contando como aceitou deixar o jornalismo de lado para ser balconista em uma doceria (Foto: Reprodução/Facebook)

Há um mês Beatriz divide o tempo entre o trabalho na doceria e os alunos para quem dá aulas particulares de inglês. Diz ter recebido mensagens de apoio e agradecimentos depois do relato no Facebook. “Muitas são de pessoas na mesma situação, desempregadas, que se sentiram inspiradas pela história”, diz.

Por enquanto, tem planos de continuar na loja e fazer cursos de administração financeira, mas não desistiu do jornalismo.

“Gostaria de continuar com tradução e produção de conteúdo, além de tirar do papel a ideia de ter um blog para escrever textos como esse”, afirma Beatriz. “Sempre tive essa vontade, mas achava que não teria audiência. Hoje vejo que não é bem assim.”

Retorno financeiro, até aqui, só para a doceria: perceberam um leve aumento no movimento depois do relato fazer sucesso na internet.

“Muitos jornalistas se solidarizaram, pediram que eu mandasse currículo”, diz Beatriz. “A repercussão deu muito reconhecimento, mas dinheiro que é bom, nada”, conta, rindo.

Confira abaixo o texto publicado por Beatriz no Facebook:

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Me descobri preconceituosa. Eu, que defendo tanto a igualdade de gêneros, de cor, de religião, que tenho amigos gays, nordestinos, evangélicos, jovens, velhos, com dinheiro e sem, até coxinhas e petralhas! Vários tipos de rótulos.

Explico: Nos últimos meses, minha área de trabalho – como muitas – está muito ruim. Em quatro meses não consegui quase nada. Então, depois de meses me enterrando num sofá perdendo tempo, vida e dinheiro, surgiu a oportunidade de ajudar uma amiga atendendo clientes em sua loja de doces. Quatro vezes por semana, período da tarde, remunerado. Uma boa forma de ocupar a cabeça, sair de casa e ter algum dinheiro. Foi aí que veio o primeiro julgamento: Eu, balconista? Jornalista, três idiomas, currículo em comunicação, trabalhando de touquinha na cabeça servindo os outros? Foi difícil tomar essa decisão, mas aceitei, estou precisando.

Dias depois, a cena durante a tarde, limpando uma das mesas, ouvi dois clientes conversando: “Coloco acento em ‘tem’? Mudou com a nova ortografia?” “Não sei. Não entendo.” E eu ali me remoendo pra dizer “eu sei, eu sei!!!”. Mas, eu era só uma atendente e eles não iriam acreditar que eu sabia. Depois a barreira seguinte: conhecidos e colegas antigos entrarem na loja e me verem nessa função. “O que eles vão pensar? Eles não sabem como cheguei até aqui, que a dona é minha amiga, vão pensar que não dei certo na vida.”

Dá pra entender como isso é errado??? Era com essa inferioridade que eu via os outros atendentes, balconistas e nunca tinha percebido! Sentia vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas, que auxilia os outros? Eu deveria é ter vergonha de mim por pensar assim, por tanta falta de humildade e empatia.

Por um preconceito idiota eu ia perder a chance de conhecer tanta gente nova como nas últimas três semanas, de ouvir tantas histórias de vida como sempre gostei de fazer, de aprender um novo trabalho, de ajudar uma amiga, de ter dinheiro pra comprar uma nova bicicleta, pra ir no casamento de uma amiga em outra cidade, de viver! Em tão pouco tempo, esse trabalho que eu achava tão inferior já me ajudou a estar mais feliz, disposta, a ter novas ideias, entender como uma pequena empresa funciona, a buscar cursos para aprender mais.

Como dizia meu avô: A vida não é como a gente quer, é como ela se apresenta! Então, estou aqui aceitando com muito amor e gratidão o que me foi apresentado. Aceitando novas formas de crescer e evoluir com, por enquanto, um preconceito a menos. Hoje, estou aqui, jornalista, tradutora, professora de idiomas, aprendiz de gestora e sim, atendente de um ateliê de doces. E o que mais precisar, a gente aprende a fazer também! E, modéstia à parte, eu tbm fico linda de touquinha! :p

Esse textão é pra tirar de uma vez essa vergonha de mim, para agradecer pela confiança e apoio dos queridos amigos Veronica, Bruno e Felipe, pelo empurrão dos meus pais Edna e Orlando e, talvez, se não for me achar muito, ajudar alguém a fazer a mesma reflexão e dar um passo à frente se for o momento.