‘The Guardian’ descobre que matérias escritas por mulheres atraem mais comentários com insultos

Por treinamento

A seção de comentários de sites jornalísticos é um importante canal entre a Redação e o leitor, além de poder ser um ambiente de discussões produtivas. Entretanto, muitas vezes é palco de algo distinto: discussões, xingamentos e insultos a jornalistas ou a outros leitores.

O jornal inglês “The Guardian” fez uma pesquisa sobre os comentários em suas notícias. O resultado mostra, entre outras coisas, a primeira prova quantitativa para o que várias jornalistas já suspeitavam: matérias escritas por mulheres –independentemente do assunto abordado– atraem mais insultos do que as escritas por homens.

 

Logotipo do jornal inglês "The Guardian", que conduziu a pesquisa
Logotipo do jornal inglês “The Guardian”, que conduziu a pesquisa

 

Apesar de a maioria dos leitores do periódico ser composta de homens brancos, a pesquisa revelou que os mais insultados na seção de comentários não o são. Dos dez comentaristas regulares mais ofendidos, oito são mulheres (quatro brancas e quatro não brancas); os outros dois são dois homens negros. Das oito mulheres, uma é muçulmana, uma é judia e duas são homossexuais. Um dos homens também é gay. Já entre os dez comentaristas regulares menos ofendidos, todos são homens.

Para chegar às conclusões, o periódico decidiu examinar os 70 milhões de comentários deixados no site do diário –especialmente aqueles que haviam sido bloqueados por seus moderadores.

Com isso, o jornal descobriu que 1,4 milhão de comentários (2% do total) foram bloqueados porque violavam os padrões de comunidade. A maioria trazia insultos (uso de palavrões ou xingamentos direcionados a alguém) ou eram tão alheios à reportagem que poderiam prejudicar a discussão.

Para checar se homens e mulheres eram tratados diferentemente pelos comentaristas, o diário começou a classificar os autores de seus textos por gênero e descobriu que o ‘gap’ entre matérias feitas por mulheres e por homens tem sido estável ao longo do tempo.

O jornal então verificou que essa diferença é maior em algumas editorias. A seção de esportes, por exemplo, tem a menor proporção de artigos escritos por mulheres –internacional e tecnologia não ficam muito atrás. A única editoria em que o número de matérias escritas por mulheres é significantemente maior é  de moda.

Reportagens escritas por mulheres tiveram mais comentários bloqueados em quase todas as seções. Quanto mais dominada por homens uma seção é, mais comentários bloqueados há nas matérias escritas por mulheres que trabalham nela. A editoria de moda foi uma das poucas seções em que comentários ofensivos escritos por homens foram consideravelmente mais bloqueados.

Algumas seções, como internacional, opinião e meio ambiente, ficaram acima da média de comentários que tiveram de ser bloqueados. O jornal descobriu que alguns tópicos atraem mais comentários inadequados. Discussões sobre palavras cruzadas, críquete, corrida de cavalos e jazz são geralmente saudáveis. Já as sobre o conflito entre Israel e Palestina, não. Artigos sobre feminismo e estupro também tiveram um nível alto de comentários bloqueados.

O “Guardian” afirma ter focado em gênero na pesquisa porque queria testar a teoria de que mulheres são mais vítimas de insultos que homens. Entretanto, jornalistas e moderadores também observam que minorias religiosas e étnicas, além do público LGBT, parecem ser mais propensos a ser alvo de xingamentos e insultos.