A neurocientista que trocou a medicina pelo jornalismo —e se deu bem

Por treinamento
Por Cláudio Goldberg Rabin

Com a passagem do furacão Katrina, em 2005, as águas começam a subir em New Orleans, nos Estados Unidos. Ilhado, um hospital precisa ser evacuado. Há centenas de pacientes e nem uma dezena de helicópteros para resgatá-los. Quem deve ser salvo primeiro? Os bebês? Os mais velhos e experientes? Os funcionários, que podem ajudar os demais? Os pacientes da UTI, que precisam dos aparelhos e morrerão quando a luz acabar? Qual, afinal, deve ser o critério de decisão?

Mostrar como os profissionais do local reagiram a essa situação limite rendeu um Pulitzer à jornalista americana Sheri Fink, que falou sobre seu trabalho no festival piauí/Globonews de jornalismo em São Paulo, no último final de semana.

Em um oásis de tempo jornalístico, a repórter teve dois anos para apurar e escrever a reportagem “Five Days at Memorial”, publicada pelo site ProPublica em parceria com o “New York Times”, e mais tarde transformada em livro.

Entrevistada pelo publisher da “piauí”, João Moreira Salles, e pela repórter da “Época” Cristiane Segatto, Sheri contou que se encantou pelo jornalismo depois de participar de um programa da universidade que colocava cientistas dentro das redações. Na época, ela era formada em medicina e cursava o doutorado em neurociência pela Universidade Stanford.

 

Sheri Fink no festival piauí/GloboNews de jornalismo (Crédito: Bruno Santos/Folhapress)
Sheri Fink no festival piauí/GloboNews de jornalismo (Crédito: Bruno Santos/Folhapress)

 

A ideia era aprender a escrever sem jargões e ajudar a melhorar o nível de conhecimento científico dos jornalistas. Deu “errado”: ela trocou a medicina pelo jornalismo.

Em seu primeiro trabalho, ainda com MD (medical doctor) na assinatura, a americana desembarcou em Srebrenica dois anos depois do fim da guerra da Bósnia para contar a história do hospital da cidade que saltou de 5 mil para 50 mil pessoas atendidas durante a guerra.

Sheri articula a narrativa do livro de 2003 “War Hospital: A True Story of Surgery and Survival” em torno de seis médicos e suas decisões éticas e morais em um ambiente de extrema pressão e de desintegração social.

Ela afirma trabalhar com o arquétipo literário do personagem na ilha deserta, no qual os meios externos e a sociedade deixaram de existir, mas é preciso sobreviver de alguma maneira.

De certo modo modo, foi o cenário que encontrou na cobertura do vírus ebola na Libéria pelo “NYTimes”, que lhe rendeu seu segundo Pulitzer. Desta vez, contudo, a cobertura foi quente —a repórter estava no local à medida em que os fatos estavam se desenrolando.

Ela considerou que sua contribuição mais importante foi revelar ao mundo que a surto da doença havia começado antes do que pregava a narrativa oficial e que os primeiros indícios foram ignorados por causa dos cortes nos repasses à Organização Mundial da Saúde depois da crise de 2008.