Um veterano de guerras

Por treinamento
Por Ricardo Lerman

“Hersh é o ponto onde o jornalismo americano mais se aproxima do terrorismo.” A sentença poderia fazer pensar que o premiado trabalho do jornalista Seymour Hersh, 78, não é digno de crédito. Depende do ponto de vista.

Autor de reportagens que marcaram a história do jornalismo americano, Hersh ficou célebre com a publicação de “My Lai 4: A Report on the Massacre and Its Aftermath”, em 1969, que revelou que o Exército americano havia matado 109 civis em uma aldeia vietnamita.

A reportagem, reconhecida com o Prêmio Pulitzer de 1970, intensificou a impopularidade da campanha militar dos EUA no Vietnã e ajudou a mudar os rumos da guerra.

Desde então, Sy, como é conhecido, vem construindo uma carreira consagrada, marcada por críticas a sucessivos governos de seu país e por enfrentamentos como os que provocaram a fúria de Richard Perle, membro do governo Bush durante a guerra do Afeganistão –e autor da frase que abre este texto.

Hersh veio a São Paulo na última semana para o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo. Ele esteve na Folha, na última sexta (9), para um bate-papo, em que falou principalmente sobre jornalismo e política internacional. Confira a seguir algumas de suas declarações.

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PEGAR LEVE

Eu acho que a mídia é sempre muito suave com os presidentes. Nos EUA, [Bill] Clinton perdeu muitos créditos por causa do escândalo sexual, depois nós tivemos a administração [George] Bush. [Barack] Obama vive uma situação de alívio. Ele gosta de repórteres, os recebe bem, socializa e os convida para jantar: assim pode controlar a narrativa que contam sobre ele. Há sempre uma narrativa oficial, eu prefiro pensar na narrativa que há por trás dessa.

JORNALISMO ATUAL
Está ruim. O lado bom é que nós temos toda uma nova geração de blogs e veículos de internet que estão transformando e levando o jornalismo para outros patamares. Você pode imaginar toda a comunicação que está sendo produzida hoje em dia? Em um acidente de avião, por exemplo, temos observadores diretos que podem estar online, escrever a respeito do que viram. Temos muito mais acesso à informação do que antes. Há um potencial incrível. Por outro lado, é muito mais difícil checar as informações e há um monte de canais estúpidos de TV, mas isso vai melhorar, porque simplesmente não pode ficar pior.

GUERRAS
Quando eu cobri a guerra do Vietnã, me dei conta da total loucura dos homens. Não somente de um ponto de vista político ou ideológico, mas de um ponto de vista moral. Se você fosse um menino iraquiano de dois ou três anos em 2003, agora mesmo você seria um psicopata, pronto para matar qualquer um. O que fizemos naquele país foi imoral e perigoso e não fizemos nada para consertar.

PONTO DE VISTA
Repórteres podem ter pontos de vista. A ideia de que não devemos tê-los ainda é muito forte, mas o fato é que somos seres humanos. É possível ter um ponto de vista e ainda assim ser profissional. Nós sabemos que o mundo é comandado por pessoas estúpidas que cometem erros todo o tempo. Nossa missão é não comprar a história deles. O trabalho do jornalista é mostrar ao mundo o que está acontecendo, buscar sempre a outra verdade da história.

BOAS HISTÓRIAS
Eu me dedico muito às histórias e lembrem-se, eu tenho tempo para isso. Não é somente escrever o que você acha que é uma boa história, mas checar e ter certeza do que você divulga. Na maior parte do tempo, eu preciso começar a escrever para perceber que a história tem lacunas. É a escrita que te mostra. Quando você começa a escrever, não consegue simplesmente pular um fato que você não verificou e que pode ser relevante. Isso pode se virar contra o seu próprio material no futuro.