‘Operação Lava Jato é uma revolução silenciosa’, diz José Hamilton Ribeiro

Por treinamento

Em homenagem que recebeu por seus 60 anos de carreira, o jornalista José Hamilton Ribeiro, 80, comparou a Operação Lava Jato a uma revolução silenciosa. “É uma revolução sem armas. Nunca se viu o ‘príncipe das empreiteiras’ em uma cadeia comum”, disse.

Mais premiado repórter do Brasil, Zé Hamilton participou de uma discussão sobre jornalismo com Ricardo Kotscho, Eliane Brum, Lúcio Flávio Pinto, Carlos Moraes e Clóvis Rossi, na quarta-feira (2), em São Paulo.

José Hamilton foi repórter da revista “Realidade”, pela qual cobriu a Guerra do Vietnã. Durante a cobertura, perdeu parte da perna esquerda após a explosão de uma mina.

Também trabalhou na Folha, “O Tempo”, Editora Abril, e, há 30 anos, integra a equipe do Globo Rural.

É o jornalista que mais ganhou prêmios Esso, com sete reportagens vencedoras (todas elas reunidas no livro “O Repórter do Século”).

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O repórter Zé Hamilton Ribeiro, em debate na Sala Itaú Cultural, nesta quarta (2), em São Paulo / Crédito: Christina Rufatto/Divulgação

 

Confira abaixo algumas passagens do encontro:

“É uma revolução silenciosa.” (sobre a Lava Jato).

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“A Realidade tinha uma Redação pequena, mas o pessoal, que era muito ambicioso, conseguiu vender para a empresa a ideia de que a Guerra no Vietnã era um assunto muito importante para se tratar com [reportagens de] agências [de notícias]. Era preciso mandar alguém. Quando me convidaram, pedi 24 horas para pensar, mas na verdade eu precisava mesmo era convencer minha mulher. Já tinha decidido que ia. Era o evento jornalístico mais importante do mundo naquela época.” (sobre o convite para cobrir a Guerra do Vietnã).

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“Na primeira vez, o que marcou foi a dor física. Passei dias à base de morfina, sentindo muita dor e náusea, sem conseguir comer. A tecnologia ortopédica naquela época era muito atrasada. Mas depois a dor passou. Na segunda vez, a dor foi maior, porque vi que aquele país tinha vencido o inimigo mais formidável e não soube o que fazer com a vitória. Aquele povo heroico foi dominado por um regime policial e as coisas só melhoraram um pouco quando abriu as portas paras as multinacionais.” (sobre as duas vezes que esteve no Vietnã: a primeira, em 1968, para cobrir a guerra, e a segunda, 20 anos depois do fim do conflito).

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“Se a pessoa não tem ética como cidadão, não vai ter como repórter. Você precisa ver em que medida o que você está fazendo é injusto com alguém. Informação é poder. No mercado financeiro, a pessoa usa a informação para si, para ganhar dinheiro. O repórter tem a vocação de conseguir uma informação e passar para os outros” (sobre ética no jornalismo e o significado de ser repórter).

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“A web movimentou o mundo e esvaziou o tipo [tradicional] de negócio jornalístico, mas criou outro. Pode ser que a nova geração, quando se formar, encontre um mercado mais favorável.” (sobre crise nas Redações e no jornalismo).

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“A boa entrevista vai de conseguir empatia com o entrevistado, de maneira que a pessoa se desarme. O entrevistado precisa estar à vontade e passar a conversar. Na televisão dá trabalho, porque tem toda aquela parafernalha de câmera, mas vale a pena.” (sobre como fazer uma boa entrevista).