Ataque ao ‘Charlie Hebdo’ não é conflito de civilizações, diz sociólogo

Por treinamento

Por Marco Lemonte e Thiago Amâncio

“Tem alguém do Estado Islâmico aí? Se tiver, o alvo é o cartunista”, brincou o sociólogo e colunista da Folha Demétrio Magnoli, apontando para Caco Galhardo, do outro lado da mesa.

A fala aconteceu na última quarta-feira (4) no auditório da Folha, onde a diretora do Núcleo de Revistas do jornal, Cleusa Turra, se juntou a Magnoli e Galhardo em um debate sobre o ataque ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, sob mediação da repórter especial Sylvia Colombo.

Em 7 de janeiro, radicais islâmicos mataram 12 pessoas, sendo oito jornalistas, na sede do jornal, em Paris, motivados por uma série de cartuns que ironizavam Maomé e o Islã, entre outras religiões. Segundo a tradição sunita, o profeta não pode ser retratado para não virar objeto de idolatria. Dois dias depois, um atentado em um mercado judaico deixou quatro mortos.

A repórter Sylvia Colombo, o cartunista Caco Galhardo, o sociólogo Demétrio Magnoli e a diretora de revistas Cleusa Turra participam de debate na Folha (Foto: Fabio Braga/Folhapress)
A repórter Sylvia Colombo, o cartunista Caco Galhardo, o sociólogo Demétrio Magnoli e a diretora de revistas Cleusa Turra participam de debate na Folha sobre o ataque ao ‘Charlie Hebdo’ (Foto: Fabio Braga/Folhapress)

O debate aconteceu após a exibição do documentário “Charlie Hebdo”, que apresenta os bastidores do semanário, com imagens de 2011. No filme, o cartunista Charb (Stéphane Charbonier), diretor da publicação que também foi assassinado, conta que sofria ameaças constantemente.

De acordo com Demétrio Magnoli, o ataque ao “Charlie Hebdo” não deve ser colocado como um conflito de civilizações porque, embora as vítimas no seminário tenham sido pré-determinadas (cartunistas e colaboradores), no supermercado frequentado pela comunidade judaica, por exemplo, o alvo acabou sendo “gente que nunca fez uma caricatura sobre Maomé.”

Ele aproveitou para alfinetar intelectuais brasileiros que estariam, na sua visão, justificando os atentados com argumentos de que o “jornal representa um Ocidente intolerante”.

O colunista da Folha elogiou o discurso dos líderes europeus após o atentado. Destacou a a atitude do presidente francês François Hollande de não declarar guerra ao islamismo, mas aos jihadistas.Também considerou histórica a afirmação da chanceler alemã Angela Merkel de que “o Islã pertence à Alemanha.”

Milhões de franceses marcharam por todo o país depois do atentado em defesa da liberdade de expressão, nas maiores manifestações da França desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

CACO

De férias em Lyon, a 460 km de Paris, Cleusa Turra foi à capital francesa para entrevistar os manifestantes. “Senti muito medo, estava despreparada para aquele episódio.” Ela contou que só se sentiu mais tranquila quando ouviu uma idosa dizer que protestava porque “Não podemos ter medo”.

Fã dos colegas de profissão, Caco Galhardo louvou o “espírito libertário” do jornal e afirmou que os radicais constituem uma pequena minoria entre os muçulmanos. “Mas essa pequena minoria faz muito barulho”.

Quando alguém na plateia comparou o ataque a um cartum, por conta do absurdo do ocorrido, Galhardo suspirou: “É o cartum mais triste do mundo.”