A banca

Por aballes

 

Por Ingrid Fagundez, trainee da turma 56

Com o trainee da Folha, ganhei São Paulo, um apartamento com pessoas que nunca tinha visto, o hábito de ler jornal em papel, e, uma das coisas das quais mais gostei, minha própria banca.  

De segunda à sexta, acordo às 7h30, sacudo o sono, troco de roupa e desço até o térreo. Dou bom dia ao seu Sebastião e cruzo a rua para encontrar Cida, dona da (minha) banca. Ela é a proprietária oficial, mas eu gosto de imaginar que alguns lugares são meus.

Frequentei outros jornaleiros antes, mas nunca com tanto afinco -e afeto. Com minha mãe a mais de 700 quilômetros, Maria Aparecida é a única que me chama de filha nessas ruas paulistanas. E eu, sua única cliente jovem que compra jornal. “Os outros vêm aqui há mais de 40 anos, sempre no mesmo horário. O resto lê no tablet, celular.” Cida trabalha ali há 20 anos. Ela herdou o negócio de seus pais, que o fundaram nos anos 1960.

Apesar de gostar do que faz, anda meio desanimada. Em uma quinta-feira cinzenta, me mostra sua lista de produtos vendidos: no dia anterior, foram apenas R$ 50.

Naquela quinta, não me sentia bem e perguntei onde ficava a farmácia mais próxima. Ela apontou para o final da rua, “uns dois quarteirões descendo, filha”. Dona Cida ficou preocupada: “Cuidado com a secura! Toma bastante água, minha filha!”.

A umidade, que havia sumido durante a semana, voltou aos ares da cidade e meu mal-estar passou. Mas não o dela. Dona Cida está “ficando doente” e não há mudança no clima que resolva. “Não consigo pagar as contas e a gente tem conta para pagar todo dia. Meus pais querem que eu saia daqui.”

Ela sai de casa às 5h e fecha a banca às 15h, quando o movimento diminui. A maioria dos dias não são lucrativos e até chegar a Guarulhos, onde mora, enfrenta duas horas de metrô e ônibus.

Apesar da tristeza eventual, procura não manter o olhar cabisbaixo. Dá um sorriso e cumprimenta um velho cliente, que pede o jornal. As dívidas são escondidas, postas debaixo da mesa.

“Vou deixar a senhora trabalhar…”

“Vá com Deus, minha filha!”