Primeira reportagem do Desafio GREAT

Por rbotelho

A partir de hoje e ao longo das próximas semanas, vamos publicar aqui os textos vencedores do Desafio GREAT, uma parceria inédita entre a missão britânica no Brasil e a Folha. 

Candidatos ao 56º Programa de Treinamento em Jornalismo Diário passaram por testes de inglês com avaliadores nativos e tiveram de produzir uma reportagem que refletisse a relação entre Brasil e Reino Unido nas áreas de educação, esporte, inovação, música ou negócios.

O concurso selecionou seis ganhadores para serem repórteres por uma semana na terra da rainha. Assim como Gabriela Terenzi, autora do primeiro texto, todos os demais vão participar do Programa de Treinamento, com início no dia 12. A viagem será neste mês e poderá ser acompanhada pelo site www.desafiogreat.wordpress.com.

Leia a reportagem de Gabriela Terenzi:

 

O que é que as britânicas têm?

Brasileiros em universidades do Reino Unido descobrem vida acadêmica com mais envolvimento, rigor e autonomia

Três das dez melhores universidades do mundo estão no Reino Unido. É o que revela o ranking 2012-2013 da revista inglesa “Times Higher Education”, que classifica instituições de ensino superior nos cinco continentes. Além do trio campeão – Oxford, Cambridge e Imperial College London -, outras 45 universidades britânicas figuram na lista das 400 melhores instituições do mundo segundo a “Times”. Do outro lado do Atlântico, o Brasil conta com apenas duas universidades classificadas. A melhor delas, a Universidade de São Paulo (USP), aparece na 158ª posição.

De olho na excelência das instituições britânicas, o governo brasileiro já enviou mais de 1.700 estudantes universitários à terra da rainha por meio do programa federal Ciência sem Fronteiras (CsF). Estudantes contemplados pelas bolsas de estudo passam um período de um ano em instituição estrangeira e devem trazer na bagagem conhecimentos que ajudem no desenvolvimento do Brasil. De acordo com o site Science Without Borders UK, que disponibiliza todas as informações sobre o CsF no Reino Unido, 90 universidades britânicas têm parceria com o programa federal brasileiro.

Para aqueles que estão estudando no Reino Unido pelo CsF, a maior diferença em relação ao Brasil diz respeito à dedicação em estudos extraclasse. “O tempo exigido para estudar em casa é muito maior, seja para ler material fornecido pelos professores, seja para pesquisa, seja para escrever trabalhos”, relata a estudante Lucianna Furtado, que cursa Media and Communication [mídia e comunicação] na Glasgow Caledonian University, na Escócia. Lucianna alega que, por esse motivo, ela e seus colegas não costumam se matricular em mais de três disciplinas por semestre. No Brasil, a estudante costumava cursar seis matérias simultaneamente.

O estudante Yann Rainer, que cursa Architectural Design and Technology [design e tecnologia da arquitetura] na University of Salford, na Inglaterra, avalia que essa dedicação fora da sala de aula é positiva: “A vida acadêmica aqui é muito mais que apenas ir à universidade. Há um envolvimento maior: o aluno passa mais tempo na biblioteca, faz mais projetos. No Brasil, sentimos falta dessa relação entre universidade e alunos”.

O modo de avaliar tupiniquim, com muitos trabalhos e provas ao longo do semestre, é bem diferente daquele adotado nas instituições britânicas. Essas preferem realizar uma avaliação única ao final de cada disciplina. Para a estudante Luiza Nunes, que cursa Environmental Engineering [engenharia ambiental] na Swansea University, no País de Gales, as provas na universidade britânica não foram nada fáceis. Ainda mais porque ela aproveitou a oportunidade para se inscrever em disciplinas de mestrado sobre temas que ela não poderia estudar no Brasil, como “desalination” (processos que retiram sal ou outros minerais da água).

“As universidades do Reino Unido exigem mais autonomia e pró-atividade do estudante fora da sala de aula – o que, obviamente, é incentivado e valorizado nas universidades brasileiras, mas que aqui é exigido dentro de critérios mais rigorosos”, é o que conclui a estudante Lucianna Furtado. “Em ‘European Film History’ [história do cinema europeu], uma das disciplinas que fiz, a professora avisou que não aceitaria nenhum trabalho com menos de oito fontes relevantes, cujas ideias deveriam ser devidamente discutidas, comparadas e referenciadas”, exemplifica.

Além do ensino, a infraestrutura das universidades britânicas é muito elogiada pelos intercambistas brasileiros. Yann Rainer aproveita a oportunidade em Salford para utilizar impressoras 3D a laser e computadores mais potentes. Já Lucianna desfruta dos 350 mil títulos da Caledonian para enriquecer sua carreira acadêmica. “Agora, me sinto muito mais preparada para terminar meu curso e seguir para a pós-graduação quando voltar ao Brasil”, afirma.