Vida na Redação (7)

Por rbotelho

Por Miguel Martins, trainee da turma 54

O mercado de Mercado

Me aproximei da editoria Mercado durante o treinamento da Folha, após ajudar em um plantão de feriado. Confesso: meu interesse pela área sempre foi distante, o de um leigo curioso. Não me imaginava fazendo parte de um universo em que a análise dos números é a matéria-prima da notícia.

É um ótimo lugar para aprender a profissão.  Toda apuração exige o esforço de entender não apenas o que os números falam mas como os personagens de uma reportagem  criam discursos em cima deles.

Certa vez,  fui pautado para uma coletiva em que o representante de um importante segmento produtivo do país defendia um novo regime tributário para o setor.  Queria, como todo bom empresário do ramo industrial, impostos mais baixos, importação de insumos mais barata e desvalorização cambial.

Sua principal proposta era horizontalizar os impostos, ou seja, estabelecer uma taxa tributária única para todas as empresas do setor, independentemente de seu faturamento ou número de funcionários.

Me impressionou como poucos jornalistas abordaram o assunto durante a entrevista coletiva. Afinal, uma companhia com mais de 300 empregados e receita de dezenas de milhões pagar a mesma porcentagem de impostos do que uma microempresa é uma proposta difícil de sensibilizar o governo.

Na resenha ao final da coletiva, troquei algumas impressões com um colega de outro veículo. Perguntei para ele o que tinha achado. “Não vinga, é ilusão”, disse. “Eu fiz a mesma matéria sobre a mesma proposta no ano passado”.

Projetos mirabolantes já não impressionam os colegas mais experientes, pensei. Eles sabem que geralmente os empresários olham muito para seus próprios negócios e têm certa dificuldade de entender as complexas relações que movem a economia.

O mercado (e não falo apenas da editoria) é muito mais humano do que os números sugerem. Há muito espaço para criatividade e artifício nas declarações apoiadas em pesquisas quantitativas. É preciso estar atento não apenas aos gráficos e à calculadora mas também à intenção por trás de qualquer matemática.