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O blog é uma extensão do Programa de Treinamento em Jornalismo da Folha. É produzido pela equipe da Editoria de Treinamento, pelos trainees e por outros colaboradores da Redação da Folha.

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A primeira tragédia

Por aballes

A Adriana Farias é colaboradora fixa do site de “Cotidiano” e estava de plantão na Redação em São Paulo no último final de semana, quando aconteceu o incêndio em Santa Maria.

Abaixo, ela conta um pouquinho como foi aquela manhã de domingo:

Às 7h da manhã de domingo chego à redação do jornal com um alerta da repórter da madrugada: “Teve um incêndio feio em uma casa noturna lá no RS, mas as informações ainda não batem. Os jornais locais estão falando em dezenas de mortos. Publiquei um texto com algumas informações básicas que consegui apurar”.

Recebo a notícia com preocupação, mas sem imaginar a gravidade do que viria a ser aquele “incêndio feio”. O outro repórter chega logo em seguida e já menciona que ouviu falar sobre um incêndio numa boate, mas que ainda não tinham o número de vítimas.

A concorrência já disparava números altíssimos ainda não confirmados de pessoas mortas. A repórter da madrugada alerta: “Não vamos dar números que não correspondam com a verdade. A pior coisa que tem é ressuscitar morto”.

Apuramos na Defesa Civil, no Corpo de Bombeiros, na prefeitura, nos hospitais locais e o número de mortos chegava a números espantosos. Ligamos a TV da redação e a GloboNews noticiava o incêndio, mas com imagens da CNN.

Diante do cenário que viria a ser pavoroso, entro no Facebook, sempre um aliado, para checar as manifestações… depois de pesquisar perfis de moradores de Santa Maria (323 km de Porto Alegre), local onde aconteceu o incêndio, encontro uma página da cidade em que várias pessoas se reuniram para comentar o que estava acontecendo. Entre alguns dos comentários na rede estava o de uma menina que procurava desesperadamente pela irmã, que teria ido a tal da boate e estava desaparecida.

Entro em contato com a menina às 7h30 da manhã e, para minha surpresa, ela me responde com os contatos dela. Eufórica, disco o telefone correndo e Gabrieli Toniolo me atende. Desesperada atrás da irmã Leandra, que estaria usando uma saia verde e uma blusa branca, Gabrieli conversava comigo aos prantos. “Estou desesperada, já são 7h30 e até agora a minha irmã não voltou de lá, meu Deus!”, conta já soluçando. Inevitavelmente penso na minha irmã gêmea e as lágrimas tomam os meus olhos em questão de segundos. Tento esconder, mas não consigo. O repórter ao meu lado para de digitar a entrevista que havia feito com um bombeiro e me consola com um olhar.

Gabrieli me conta que uma amiga chamada Michele teria ido junto com a irmã dela na festa e que havia mandado uma mensagem de texto avisando que Leandra estava desaparecida. Peço o contato da amiga e finalizo a conversa desejando toda a sorte do mundo. O texto saiu: Família busca estudante desaparecida em boate no RS.

Com o telefone da amiga em mãos me senti como se estivesse com o contato mais valioso que um repórter de São Paulo, que não foi deslocado para Santa Maria, poderia ter naquele momento: o celular de uma sobrevivente do incêndio.

Na terceira ligação, Michele Pereira, 34, me atende. Tentando conter a euforia, me apresento como repórter do jornal e pergunto se ela poderia me contar detalhes sobre o incêndio. Michele está tão eufórica quanto eu, e a preocupação a mantém agitada pelo telefone.

Michele me conta que havia deixado a amiga Leandra no banheiro no momento do incêndio e que ainda estava procurando por ela. Em seguida, pergunto detalhes do que havia provocado o acidente e recebo a frase mais importante: “A banda que estava no palco começou a usar sinalizadores e, de repente, pararam o show e apontaram [o sinalizador] para cima. Aí o teto começou a pegar fogo, estava bem fraquinho, mas em questão de segundos começou a se alastrar”.

Pronto! Estava feita! Ninguém de São Paulo tinha essa informação preciosa às 9h da manhã vinda de uma pessoa que estava exatamente em frente ao palco e viu como tudo aconteceu.  Vi pessoas sendo pisoteadas tentando sair, diz vítima de incêndio.

Estrelismos à parte porque a tragédia não merece, mas a sensação do furo é inerente a qualquer repórter em uma cobertura como essa em que o telefone acaba sendo o único aliado.

Durante esse período de apurar e redigir as matérias, repórteres de todo o jornal já haviam sido contatados para virem o quanto antes para a redação, os mais experientes vieram por espontânea vontade já sabendo da importância do fato.

Todos os jornalistas ajudaram a nossa editoria (“Cotidiano”) a apurar a tragédia. Repórter de “Mundo” cuidou da repercussão internacional e o contato com os correspondentes no exterior, o da revista “saopaulo” ajudou procurando mais personagens e apurando as notícias da rádio gaúcha, repórteres de “Poder”, “Mercado”, “Esporte” e de outras editorias também participaram.

Os repórteres de “Cotidiano” que iam chegando se dividiam na apuração: um ficou encarregado do perfil da cidade de Santa Maria, outro do perfil da banda que estava na boate e assim por diante. Uma repórter nos salvou trazendo comida.

Naquela hora atentos a rádio gaúcha e ao jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, recebemos a informação truncada de que seguranças teriam barrado a saída das pessoas que tentavam fugir do fogo, e a minha chefia queria essa informação.

Penso em ligar novamente para Michele, talvez ela tivesse essa informação e não teria me passado na primeira entrevista. Ligo na casa dela e a prima atende com a notícia: “Adriana, a Michele não pode falar agora. A família encontrou o corpo da amiga dela dentro do caminhão da Brigada Militar. Ela está em estado de choque. A família está desolada”.

Paro alguns segundos, solto um profundo suspiro e agradeço a informação. Não tive coragem de perguntar mais nada. -> Família identifica corpo de estudante de radiologia de 23 anos. (a primeira versão do texto saiu às 11h 57).

Naquele momento todas as reportagens sobre a tragédia haviam sido feitas por São Paulo. O correspondente em Porto Alegre e um outro jornalista da Folha que estava na cidade foram deslocados,  mas levariam pelo menos três horas para chegar ao local. Uma correspondente na cidade que já havia trabalhado no jornal ofereceu ajuda. 

Às 13h a redação do maior jornal do país já estava completa, junto com as equipes da fotografia e da infografia. Muito antes disso, a chefia da home já estava em peso na redação “estourando” o site, ou seja, mudando radicalmente as manchetes para as chamadas da tragédia. O domingo havia se transformado em uma segunda-feira.

Os olhares dos jornalistas, fotógrafos e ilustradores do jornal foram tomados por uma sensação profunda de tristeza e horror a cada informação apurada. Trechos das minhas entrevistas saíram no caderno especial de “Cotidiano” de segunda-feira (28).  Essa foi a minha primeira cobertura de uma tragédia e, sinceramente, espero que tenha sido a última.

 

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