Processos e outros lados

Por Paula Leite

A trainee Daniela Arai e seus colegas fizeram algumas reportagens com orientação do professor Gustavo Romano, sobre investigações ou processos de crimes. Ela conta um pouco sobre as dificuldades que eles enfrentaram nessas apurações:

Na semana passada, tivemos um curso de direito com o professor Gustavo Romano e fizemos uma série de exercícios de reportagem. Uma das atividades consistia em retomar casos de crimes noticiados pelo jornal e escrever reportagens sobre o andamento dos inquéritos ou processos.

A mim coube investigar, primeiro em grupo e depois em dupla, o caso do homicídio do presidente do Sindicato dos Camelôs Independentes de São Paulo, ocorrido em 2010, e o caso do sequestro e morte de um jornalista, em 2003.  Nos dois casos tentamos, mas não conseguimos ter acesso aos documentos oficiais.

Para compor a primeira matéria, conversamos com a delegada do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa responsável pelo caso e ela nos informou que o inquérito policial não estava concluído e havia sido mandado ao Fórum da Barra Funda para que o juiz analisasse um pedido de mandado de busca e apreensão. Fomos até o fórum e descobrimos que o inquérito não estava lá. Fizemos a matéria apenas com as informações prestadas pela delegada.

No segundo caso, começamos a apuração com uma pesquisa no site do Tribunal de Justiça de São Paulo e descobrimos que estava em andamento um processo envolvendo cinco acusados de praticar o crime. Segundo os dados do TJ, o processo também deveria estar no Fórum da Barra Funda. Minha colega Carol foi até lá e descobriu que não estava (e não é que alguém houvesse retirado para consultar, não estava mesmo). Fizemos a matéria apenas com as informações obtidas com o advogado de acusação contratado pela família da vítima.

As duas matérias foram produzidas com informações de apenas uma fonte porque não conseguimos acessar o inquérito e o processo e não tínhamos tempo para descobrir por outros meios os nomes dos promotores e advogados de defesa e entrar em contato com todos eles (tínhamos cerca de quatro horas para apurar e escrever). O ‘outro lado’ ficou de fora.

Tanto a Ana Estela quanto o Gustavo Romano atentam para a importância de se ouvir o ‘outro lado’ ou os ‘outros lados’. No livro ‘Jornalismo Diário’, a Ana ensina que, se não for possível ouvir o acusado ou o seu advogado, deve-se pelo menos consultar o processo e copiar a versão da defesa. E quando não temos acesso ao processo?

Se fosse na ‘redação real’, essas matérias teriam caído, mas fazia parte do exercício levá-las até o fim. Para quem, como eu, está trabalhando pela primeira vez com esse tipo de apuração, fica a dica: para casos que envolvam questões judiciais, reserve mais tempo além do que achar necessário, pois os processos podem não estar onde deveriam estar, podem estar perdidos no limbo do Judiciário.